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A antropóloga Helen Fisher, especialista no estudo das relações amorosas, concluiu que, apesar de todas as mudanças no mundo moderno, os nossos três sistemas cerebrais – sexual, romântico e vinculado (relações duradouras) – vai manter-se. Razões a favor, explica Clara: “A taxa de divórcios está a estabilizar, o Viagra e a terapia de substituição hormonal ajudam a um futuro de relações íntimas de qualidade.” Apenas um senão: “O consumo de antidepressivos altera a química cerebral: aumentam a serotonina mas matam a libido e põem em risco o amor romântico. É por isso que nunca houve tanta falta de líbido como hoje.”
Ai ai ai, desculpem lá mas isso é que não pode ser. O casamento que vá à vida, mas o amor romântico? “Não vai morrer, mas vai tornar-se diferente”, defende Clara. “Se eu me apaixonar por alguém, há uma necessidade exclusiva de estar com esta pessoa porque a paixão ativa os centros cerebrais da dependência. Esse tipo de relação vai continuar, porque estamos evolutivamente programados para isso. E o facto de se ter mais oportunidades até vai fazer com que provavelmente aconteça mais vezes. Portanto, amor romântico continuará a ser o motor das relações humanas. Agora, a manutenção deste amor é que vai ser mais complicado. Vai obrigar as pessoas a fazer mais trabalho de casa.”
Cada vez mais diferentes
O desafio será saber se estamos dispostos a investir tempo e paciência numa relação que coexistirá com possibilidades de gratificação imediata: “O amor instantâneo – os speed datings, os sites de encontros, o ‘fast love’ – pode desgastar, minar a confiança e trazer o desapontamento. O risco é saltar de flor em flor sem nunca se ter o jardim com que sempre se sonhou.”
A estabilidade está ameaçada? “A estabilidade não estará na estrutura, mas em nós.” Ai explique lá. “Quando todas as estruturas caem – e hoje já estamos a assistir a isto - a estrutura que resta sou eu. Se eu, estruturalmente, estiver baseada na questão do ter – quero, posso, tenho – consumindo aparelhos e parceiros, este tipo de estrutura é falível, provisória, transitória. Se eu tiver uma estrutura de valores em que vou trabalhar aquilo que quero para mim, posso construir uma vida à minha medida. Uma vida personalizada, relações personalizadas. Ou seja, quanto mais desenvolvermos as nossas singularidades, mais fácil se vai tornar encontrar par. Já hoje existe uma diversidade de nichos, e vai haver muito mais no futuro, que será muito mais complexo do que o modelo tradicional do bairro.”
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O poder feminino vai ganhar terreno
Bem, aqui estou de volta ao futuro, uma bela androide totalmente diferente de todas as outras androides.
Problema: como é que vou encontrar outro (ou outra) androide à minha altura para relação provisória imediata com futuro incerto mas promissor? Uma coisa é certa: as mulheres vão ser (ainda) mais exigentes: o poder feminino vai ganhar ainda mais terreno. Mais instruídas, mais independentes, as mulheres vão tornar-se também – adivinhem lá – mais exigentes. “Menos tolerantes que as mães e avós, elas vão querer companheirismo e relações paritárias. E isso significa desafios mais complicados para os homens, pouco preparados para tanta mudança.”
Ou seja, se o Manel não me dá o que eu quero, vou virar-me para o João, ou o Tomás, ou o Vasquinho, conheço tantos nas redes sociais...
Vai haver mais gente sozinha (individualismo oblige...) mas também vai haver mais formas de as pessoas se encontrarem, defende Clara. “Regras para o amor, acabaram. Aquela coisa do ‘namoro-amor romântico’, casamento-amor construido, já não existe. As redes sociais como o Facebook vão continuar a forma principal das pessoas se conhecerem, mas a forma como a relação evolui desde aí, vai ser outra coisa.”
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Conclusão: o amor subsiste, mas as circunstâncias sociais afetam-no. “O individualismo vai ser obrigatoriamente passível de revisão, porque não sobrevivemos assim. Nos loucos anos 20 do século passado, igualmente marcados por depressões e crise, as pessoas começaram a encontrar modos de amar mais informais e mais gregários. Mas reencontrarmo-nos é uma inevitabilidade. A nós próprios em primeiro lugar. E de qualquer maneira, só vamos saber as regras quando começarmos a jogar o jogo.”
Conclusão: o amor subsiste, mas as circunstâncias sociais afetam-no. “O individualismo vai ser obrigatoriamente passível de revisão, porque não sobrevivemos assim. Nos loucos anos 20 do século passado, igualmente marcados por depressões e crise, as pessoas começaram a encontrar modos de amar mais informais e mais gregários. Mas reencontrarmo-nos é uma inevitabilidade. A nós próprios em primeiro lugar. E de qualquer maneira, só vamos saber as regras quando começarmos a jogar o jogo.”
As circunstâncias não são favoráveis ao amor romântico, mas essas circunstâncias estão rapidamente a mudar. “O amor construído, com menos regras do que antigamente, vai ser possível. Mas vai haver uma seleção natural das pessoas mais preparadas para o viverem. Construir o amor dá trabalho? Pois dá. Mas o impulso da vida é esforço. Agora e no futuro, isso não vai mudar.”
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