sábado, 6 de abril de 2013

Ai, Margarida


" Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
—Tirava os brincos do prego, 
Casava c’um homem cego 
E ia morar para a Estrela.

Mas Margarida,
Se eu te desse a minha vida, 
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.) 
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.

E, Margarida, 
Se eu te desse a minha vida 
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro, 
Mas achava que era um erro 
Querer amar sem viver.

Mas, Margarida, 
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito. 
Fica tudo sem efeito. 
Nesta casa não se fia."


Comunicado pelo Engenheiro Naval
Sr. Álvaro de Campos em estado 
de inconsciência alcoólica.

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