segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Aquelas cartas de amor


Ai Ophelinha... aquele Fernando tomou conta do seu coração e dominou as suas ambições de mulher. Mas até que ponto terá sido sincero? Já abordei esta temática num post passado mas voltei a ela por pensar ter encontrado várias explicações para à suposta confissão de FP ao célebre filósofo português (e, aliás, pouco valorizado ainda) Agostinho da Silva. Segundo Fernando Dacosta (http://umfernandopessoa.blogspot.com/2008/12/dacosta-sobre-pessoa-continuao.html), Agostinho da Silva confidenciou-lhe que Pessoa, enfastiado, terá voluntariamente dado início ao namoro "movido pela sua irremediável fantasia heteronímica", criando (interpretando) um vulgar empregado de escritório enamorado de uma colega, como era costume na época. Porém, quando se apercebeu que estava a brincar com os sentimentos genuínos da moça, arrependeu-se amargamente e decidiu romper imediatamente, escrevendo a famosa carta "O meu destino pertence a outra Lei, etc.", num estilo diferente das outras. Ora bem, este relato não me parece fazer qualquer sentido, tendo em conta não só o feitio de Pessoa mas também os seus objectivos literários e o contexto em que as cartas foram escritas (mas os meus argumentos valem o que valem - não conheci FP e sou apenas uma mera admiradora, não investigadora, da sua obra). Primeiro: FP sentiria necessidade de se envolver com uma mulher só para estimular a sua produção literária?! Logo ele, tão preocupado por questões filosóficas e existencialistas ia mesmo pensar "Que fastio, não sei sobre o que hei-de escrever, careço mesmo de falta de inspiração... hmm, aquela miúda la do escritório é mesmo gira; espera aí, e se, fazendo uso do nome dela, encenar uma cena à Shakespeare? Pode ser que não resista (as mulheres adoram cenas românticas) e assim tenho material para um novo heterónimo"? Ridículo, direi eu. Logo ele que era tão tímido com as mulheres, como seria capaz de, deliberadamente, fingir sentimentos e cometer uma atrocidade dessas? Sim senhor, ele era fingidor, mas na arte da poesia, não na vida real.
Segundo: então se ficou tão arrependido de andar a brincar aos heterónimos apaixonados, por que motivo, nove anos depois, repetiu a dose? "Ah e tal, lá estou eu de novo enfastiado, que maçada... ai, agora a Ophelia lembrou-se de pedir ao Carlos aquela fotografia em que estou no Abel; não é tarde, nem é cedo, vou voltar a dar vida àquele heterónimo apaixonado." Mais ridículo me parece ainda.
Porém, admito a hipótese de ter sentido arrependimento: FP tinha a certeza que, mais tarde ou mais cedo, essas cartas seriam trazidas à luz do público ávido de compreender melhor o poeta. Talvez o desabafo a Agostinho da Silva traduza o receio de que, caindo no ridículo, a sua obra não fosse devidamente valorizada devido à existência de tais manchas; ou então a sua intenção terá sido resguardar a sua intimidade e preservar o seu passado amoroso no silêncio do túmulo, logo ele que não fazia ninguém confidente sobre o assunto. Sim, é possível ter preferido ser visto como um vilão, mas intelectualmente dominado pela razão, do que imaginar o seu íntimo devassado por terceiros.
Até nem ponho em causa que possa ter criado um heterónimo; mas terá sido um processo involuntário, consequência do seu natural sentimento. Até aventuro dois nome para tal hipotético heterónimo: Ibis ou Nininho.
Álvaro de Campos, seu alter-ego corrosivo, terá empreendido uma última tentativa de defesa e justificação das suas cartas a Ophelia, através do célebre poema " Mas afinal/ Só as criaturas que nunca escreveram/ Cartas de Amor/ É que são/ Ridículas". A propósito, David Mourão-Ferreira elaborou uma brilhante análise ao papel do engenheiro naval na evolução do envolvimento com Ophelia - "Estas Cartas de Amor de Fernando Pessoa", 1978. No final ele remata, referindo-se ao poema de Campos: "aí sentimos que FP está lançando um véu de redentora compreensão sobre o túmulo de qualquer amor, sobre a memória de quaisquer cartas que de amor tenham sido".
Talvez este véu tenha sido lançado depois da conversa com Agostinho da Silva.
Na verdade, tudo são meras hipóteses; na verdade, nunca se irá ter certeza do que realmente se passou na mente (e coração) do poeta.
Apenas podemos defender o nosso ponto de vista, mediante a nossa interpretação de quem foi Fernando Pessoa.
E o meu, mal ou bem, está agora defendido.

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