Estava eu a pesquisar mais informação sobre a vida do escritor de quem falei anteriormente quando fiz uma descoberta notável: "José Cardoso Pires é natural da freguesia de São João do Peso - Vila de Rei"! Que surpresa! Longe estava eu de imaginar que tal senhor da literatura fosse oriundo duma terra a 15 quilómetros das minhas raízes paternas, a qual gosto faço questão de visitar quando opto por um itenerário alternativo para chegar às tais raízes. Mais: o ano passado até fui à festa de Verão anual, em honra se São João Baptista, onde comi um belo caldo verde e uma bela de uma bifana (e ingeri uma não menos bela mini), ao som de uma banda de segunda categoria, mas com uma capacidade de animação inquestiónável.
Porém, logo a seguir, leio a seguinte citação feita por tão prestigiado autor:
"Aquilo [a terra onde nasceu] é uma terra de 'pês', só deu padres e pedras, pinheiros e polícias. E sobretudo transpira subserviência (...)É eu não gostar das raízes que tenho. Nunca gostei. Tudo o que me cheira à Beira Baixa, àquela Beira é pior que...(...) Para mim tudo o que vem dali é mau (...)
José Cardoso Pires, natural de São João do Peso, entrevista com Fernando Assis Pacheco, Jornal de Letras, Artes e Ideias, 3 de Março de 1981, republicada ibidem 24 de Janeiro de 1999."
Arrefeci. O amor que tenho à Beira Baixa assim me exigiu. Passada a reacção instintiva e após ter meditado em tais palavras, não posso deixar de concordar que ele tem razão. A Beira Baixa é linda, sem dúvida, com os seus pinheiros e as suas pedras, e as pessoas oriundas de lá são, em geral, honestas e trabalhadoras, ingressando vários sectores da sociedade, para além do sacerdócio e da segurança pública; mas, tenho de admitir que seria incapaz de lá viver pois isso significaria o corte com o meu mundo civilizacional. Aquilo é um paraíso em contexto de férias mas creio que a rotina diária tornar-se-ia extremamente monótona e mesquinha. Talvez mais tarde, quem sabe. Por agora vou aproveitando as minhas folgas e parto já hoje para me refugiar naquele fim de mundo, onde nem tudo é assim tão mau. Depende da perspectiva, perdoe-me o caro JCP.
PS - Em relação à subserviência, convém acrescentar que a infância de JCP foi vivida em período ditatorial. Não era todo o país subserviente até à medula nacional?
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