domingo, 20 de junho de 2010

Saramago


Também eu tinha de falar sobre ele, permitam-me a ousadia. Devia ter uns 5/6 anos e lembro-me de ouvir na televisão anunciarem o novo livro dele, na época "A história do cerco de Lisboa", da editora Caminho, claro está. Passaram alguns anos sem haver outra referência (a polémica do "Evangelho..." passou-me mesmo ao lado). De novo, outro apontamento da memória: a publicidade da Caminho aos "Cadernos de Lanzarote". Lembro-me de associar a palavra Lanzarote a um fidalgo espanhol, nobre cavaleiro, capaz de grandes feitos - sabe-se lá porquê. Já na adolescência, com a entrega do prémio Nobel, fiquei com a percepção de Saramago ser um homem frio, distante e arrogante (talvez devido àquela polémica de não querer ter falado com os jornalistas da Sic). Muito espantada fiquei eu, algum tempo depois, ao percorrer a A23, quando o meu pai me disse que as suas origens remontavam a uma terra perto da Golegã. Afinal, as suas origens eram humildes, o que subiu um pouco a minha consideração pelo senhor.
Na viragem do século XXI, fui levada a ler um livro dele, totalmente por culpa da minha devoção a FP. "O Ano da morte de Ricardo Reis" foi difícil de ler, não tanto pela pontuação, que eu acho brilhantemente manipulada por ele, mas mesmo pela densidade e complexidade das frases. Inúmeras vezes repeti a leitura das frases, para lhes captar o significado. O resultado foi que, presentemente, não consigo recordar a história do livro. Não me lembro do final. (É triste, eu sei).
Sexta-feira última leio a notícia da sua morte, via facebook (o ardina digital). A minha reacção foi de indiferença. Porém, à medida que via as entrevistas que repetiam na televisão e tomava conhecimento da sua biografia, a simpatia por ele começou a invadir-me. Péssimo hábito do português de só reconhecer as pessoas depois da morte!...
José Saramago foi um notável escritor, despertador de consciências através das suas mordazes e frontais provocações, descendente indirecto de Fernando Pessoa, atrever-me-ei a afirmar. Facto curioso foi Saramago pensar que Ricardo Reis era, de facto, um escritor de verdade, nas inúmeras expedições culturais ao local de culto que é o palácio Galveias, onde, puro auto-didacta, ia beber o precioso néctar do conhecimento. Mas, facto ainda mais curioso (lá vem o pormenor romântico) é o facto de ter conhecido a sua última mulher, Pilar del Rio, através da admiração de ambos por FP. Isto quando o escritor contava 63 anos. Nunca é tarde para viver outra vez. E, Saramago, escritor tardio, é a prova viva disso. Daí a minha admiração (sim, tarde demais, mas mais vale tarde do que nunca).
Comunista? Fiel aos seus ideiais.
Ateu e anti-religioso? Homem racional que apenas procurava a verdade absoluta.
Um ser humano, com capacidades literárias excepcionais, que viveu em pleno.
(Fica a promessa de tentar dedicar-me com mais entusiasmo à sua obra. Não é fácil mas ler dá trabalho, não é verdade?)

Legenda da imagem: placa existente na aldeia histórica de Castelo Rodrigo

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