Vestida de preto, aparentemente ela só queria avaliar a TA e a glicémia... o que irrita as enf. porque é o próprio utente que deve fazer a sua própria vigilância dos sinais vitais (lá diz o empoderamento em saúde...). Ao dar-lhe umas amostras de sal de sódio (próprio para hipertensos), a senhora começou a falar e a dizer que agora morava sozinha porque o marido tinha morrido há 3 meses. Casados há 60 anos, sempre fora amigo dela e nunca a tratara mal... (e, perdoem-me a minha aparente ingenuidade, mas penso que ela estava a ser honestamente sincera - pois, se ele não fora assim, de que valia estar agora a defender a imagem do defunto marido?). Sempre lhe dissera "tu é que sabes", nunca a obrigara a nada, sempre fora gentil com ela... após ter chorado e desabafado connosco (perante o olhar da outra colega que continuava a atender e devia pensar que estávamos há muito tempo na palheta com a senhora), pareceu sair dali aliviada por ter derramado as suas lágrimas e honrado a memória do marido que a amara durante mais de 5 décadas. Já na rua e já dentro do carro, a senhora passou ao lado e acenara-me. Desci a janela e despedi-me, aconselhando "vá devagarinho...", ao observar o seu andar cambaleante. Isto sim, são verdadeiramente cuidados de enfermagem... a senhora não precisava apenas de avaliação de sinais vitais, precisava de falar e de chorar. Arranquei satisfeita comigo própria. O que umas simples amostras de sal podem fazer para proporcionar algum bem-estar e conforto. É tão fácil fazer as pessoas mais felizes! Logo eu, no papel profissional que desempenho, tenho o poder de proporcionar um pouco de felicidade a quem procura os nossos cuidados.
Não devemos ser cínicos. Devemos procurar fazer do mundo um melhor local, por pior que esteja a situação. Aliás, o nosso esforço deve ser maior porque a situação está cada vez pior...
PS - E quem me dera viver também um amor autêntico, honesto, generoso, puro...
terça-feira, 29 de outubro de 2013
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